sexta-feira, 29 de junho de 2012

Inked Magazine - Perguntas e Respostas com Duff Mckagan



             

Em 1984, Duff Mckagan – um simples garoto de Seattle dirigia seu velho Ford até Los Angeles, tentando escapar da infestação de drogas na cena Noroeste, onde ele cresceu tocando bateria, guitarra e um pouco de baixo em bandas como The Fastbacks e Tem Minute Warning. Uma semana depois, ainda vivendo em seu carro, ele respondeu um anuncio para baixistas, postado por um cara chamado Slash. O resto é historia. O Guns n Roses criaria um dos álbuns de estreia mais vendidos de todos os tempos. Mckagan, que acabou parando no hospital em 1994 graças à pancreatite aguda induzida pelo álcool, e por uma década de abuso de drogas, se limpou e voltou ao colégio, montou o Velvet Revolver – também com Slash, e se tornou um colunista para a Seattle Weekly e ESPN. A incrível historia de Mckagan é contada em sua autobiografia Best-seller, It’so Easy (and Other Lies).




INKED: Como você descobriu que seria introduzido no Rock n Roll Hall of Fame?
Não foi com um envelope envolto em veludo sendo entregue em minha casa com um cara de luvas e um terno. Nada disso. Eu descobri sobre o Hall of Fame por alguém que me ligou após ver isto na internet. Eu nem sei em que é baseado o processo de seleção. Não é um esporte competitivo. Não é como se você fosse um jogador de baseball com uma media vitalícia de batidas acima do .300. É sobre aqueles pequenos momentos de exaltação artística, e as pessoas aos poucos começando a ver sua banda mais e mais, esta experiência compartilhada. Mas eu sabia que deveria ir à cerimônia, pois eu estava lá quando o mesmo aconteceu com o Van Halen (apenas dois integrantes apareceram, e os fãs ficaram chateadissimos). Eu admiro o tempo e quão hardcore foram os fãs que nos apoiaram, então o mínimo que eu podia fazer, era ir à indução.

INKED: Qual foi a semelhança entre saber sobre o Hall of Fame e descobrir que vocês foram os mais vendidos com Appetite For Destruction?
Não foi um grande momento também. Estávamos em turnê, trabalhando. Estávamos vivendo em um ônibus com nossa equipe, ganhando cem pratas por semana, e não poderíamos ter ficado mais felizes. Não tinha Internet e nem celulares – pelo menos não conhecíamos ninguém que tivesse um – nem mesmo nosso tour manager. Nós descobrimos porque a gravadora nos mandou um representante local até o nosso ônibus com um bolo. E então disse, “Vocês são o numero um”. E nós ficamos tipo “Uh, wow, legal, ganhamos um bolo, bacana. Mas não sabíamos de fato o que significava. Foi o mesmo com o Rock n Roll Hall of Fame – eu realmente não sei o que significa.

INKED: Você é um autoproclamado “devorador de livros”, então qual a comparação entre estes momentos, e descobrir que o seu livro era um “New York Times Best-Seller”?
Creio que seja porque sou melhor que a maioria das pessoas por aí como escritor, e minhas estatísticas eram de fato, melhores – apenas 16 outros livros foram melhores naquela semana em particular. E eu nem sequer ganhei a droga de um bolo.

INKED: No seu livro, você fala sobre ter feito sua primeira tattoo após o GnR assinar um contrato com a gravadora. O que te levou a escolher esta ocasião?
Hoje em dia, todos tem tattoos e todos tem Sleeves(n.t: braço fechado por tattoo), mas em 1986, quando fomos contratados, eu conhecia uma ou outra pessoa que tivesse tattoos – e eles tinham em media, uma cada. Axl tinha uma. Izzy tinha uma. E eu era tipo, “Porra, elas são demais”!”. Mas uma tattoo custava cerca de 300 pratas – caro demais para mim. Naquela época, ou eu faria uma tattoo, ou pagaria o aluguel. Não dava pra fazer os dois. Então quando eu consegui o dinheiro do contrato, eu já sabia que ia fazer uma tattoo.

INKED: Sua primeira tattoo foi – naturalmente – duas armas com uma rosa. O quão breve você fez a seguinte?
Uma semana depois – mas eu não me lembro de ter feito. O lance é que, nós nos estabilizamos com aquele contrato. Eu de repente tinha 7,500 pratas na minha bota. Eu adiantei três meses de aluguel e comprei um novo par de botas de cowboy e um par de calças, e com o resto eu podia comprar bebidas para todos os meus amigos. Certa manhã eu acordei no apartamento de alguém, com meu braço direito doendo. E eu tinha minha segunda tattoo – uma adaga. Como eu tinha duas, agora eu estava em equilíbrio. Quando você tem em apenas um lado, você está meio que desequilibrado. Então você precisa ter duas. Mas então eu comecei a char que a do braço esquerdo não era grande o suficiente. Então eu fiz a terceira tattoo. Foi minha “Carpe Diem”, que meio que encaixou abaixo da minha primeira tattoo. E isto meio que me desequilibrou novamente, então eu fiz um dragão no meu braço direito, que dava a volta na adaga e continuava. E com a tattoo de dragão, eu precisava de algo nas costas. Então eu fiz uma flor japonesa com um cara que era famoso por seus chrysanthemums e lótus. Então eu parei por um tempo.

INKED: E quando foi que voltou?
Após ficar sóbrio e começar a estudar uma disciplina de artes marciais chamada “Ukidokan”, eu fiz o símbolo Ukidokan em minhas costas. EU estava pensando em fazer na região lombar, mas achei que poderia se parecer muito com um “desenho de vadia”, então eu fiz no meio das costas. Isso dói pra caralho. Foi feita pelo Mark Malone. Foi uma tattoo de apenas uma tattoo, e doeu pra caralho. Ficou demais porque os detalhes permanecem, mas cara, nas suas costas, entre as costelas, dói. E foi bem cansativa também – seis horas.

INKED: Uma das discussões do seu livro é sobre a diferença entre “dor boa” e “dor ruim”. Como você as distingue?
Quando eu era uma criança de 9,10,11 anos, eu passei por coisas em casa que eram confusas. E durante essa época, eu jogava peewee football (n.t: uma espécie de categoria mirim do football). Quando alguém do nosso time ferrava tudo, tinha uma colina próxima ao nosso campo de treinamento, onde tínhamos que subir correndo. Eu acabei me enamorando desta dor. Tirava-me de minha situação. Mesmo jovem, eu podia ver o valor da dor do condicionamento físico. Dez anos depois eu não poderia estar mais afastado desse tipo de condição, e eu comecei então a correr atrás de outros tipos de dor. Mas eu descobri que não estava tão confortável com isto. Eu passei por crises de pânico – outra forma de dor, medo – e medicava isto. Meus vícios começavam. Eu bebia muito e me drogava muito e comecei a sentir muitas dores físicas em meus rins, minha pele descascando em minhas mãos, meus pés rachados, meu nariz sangrando, e meu septo queimando junto com tudo. Então tudo parou quando meu pâncreas estourou. Essa dor foi brutal – mais do que eu possa explicar. Quando eu sai do hospital, achei que precisava voltar àquela dor de condicionamento físico. Eu sabia que essa era uma dor boa.

INKED: A dor de uma tattoo é boa ou má?
A dor de uma tattoo é uma dor boa. Para muitas pessoas, é como se fosse seu rumo. Indo para uma longa sessão, para fazer algo distorcido que ninguém vai ver. As pessoas se viciam nessa dor. Eu nunca fui viciado em dor, mas eu aprecio isso, porque cada peça – especialmente desde que fiquei sóbrio- é algo em que pensei sobre. Especialmente nas artes marciais, que para mim corre paralelo à minha sobriedade, eu respeito a dor. Não é algo que vai me subjugar, e eu meio que domino. Quando eu fiz a marca do Ukidokan foi perfeito, pois eu fui ao Mark Mahoney e ele usou apenas uma agulha – como se ele já soubesse.

INKED: Você tem sua própria banda o Loaded, e também o Velvet Revolver; Teve uma breve passagem pelo Alice in Chains e Jane’s Addiction; você tem sempre projetos paralelos. Quando você escreve, como você distingue o que serve para cada projeto?
Quando o VR está ativo, eu costumo escrever mais riffs para ele. Eu não posso articular porque riffs são diferentes para coisas diferentes, mas no VR eu não preciso me preocupar em cantar a frase. Tem uma grande diferença entre escrever com uma melodia em sua cabeça, e escrever com a letra e articulando esta letra enquanto você está tocando o riff. Para o Loaded, às vezes eu preciso simplificar o que eu toco na guitarra se eu não consigo tocar e cantar ao mesmo tempo. E é por isso que eu não toco baixo no Loaded. Existem vários caras que fazem isso muito bem, como Sting e Geddy Lee – eles podem cantar e tocar todas as partes do baixo – mas não é natural para mim. Eu acabo pensando demais e eu não gosto quando isso acontece. Eu gosto apenas de tocar e fazer parte dessa experiência, e não me preocupar com o que estou fazendo.

INKED: Você teve que passar um bom tempo pensando em sua vida para o livro. Você aprendeu algo sobre si mesmo?
Bem, com todos os autos em sua vida, você quer lembrar que teve muito o que fazer com isto. E com os baixos, você quer lembrar que não tinha muito o que fazer. E a verdade é que – E isto eu descobri enquanto escrevia – talvez eles sejam parecidos. Talvez você teve algo pra fazer nos péssimos momentos. Numa retrospectiva, eu vejo coisas que poderia ter feito diferente. E as coisas boas? Bem, talvez eu não tenha escrito cada droga de nota, e talvez eu não seja o líder que pensei que fosse, mas tudo bem. Não devo me chatear. Isso te fortalece. Você sente mais a vontade porque compreendeu isso. Eu me senti cerca de 150 kilos mais leve após todos esses devaneios saírem de mim. No meu caso, apenas parar e dizer “esta é a verdade”, tenha me fortalecido e me deixado mais confiante.

INKED: Essa “auto-exploração” do livro ajudou a suavizar todas as bagunças de seu passado?
Para alguns caras que passaram por muita merda publicamente e acabaram convivendo com o peso disso, você precisa ser legal com você para ser legal com a situação. No final do dia, eu estou de bem comigo mesmo. Eu escrevo sobre minha época no Guns e no VR é claro, e falo sobre fatos envolvendo a banda – porque estes foram os fatos que me formaram. Mas ninguém tinha uma razão para fazer o livro. Com o Axl, a primeira vez que fomos um ao encontro do outro novamente, em 2010 enquanto eu ainda estava escrevendo, foi uma surpresa que ninguém poderia sequer imaginar. A verdade do que significa, é que eu fiquei feliz que nos vimos algumas vezes durante os últimos anos. Aquela banda original acabou retardando demais os cinco originais de várias maneiras – fomos retardados na habilidade de nos comunicarmos. Algumas vezes eu preciso rir, “qual é!”. Mas também é triste porque alguns caras não podem ter um tipo de jantar vitorioso. Nós nunca tivemos esse jantar para dizermos, “Olhe a merda que fizemos”. Nós nunca fizemos isso.

INKED: Planos para uma próxima tattoo?
Minhas filhas querem que eu faça nossos cães comendo comida chinesa com hashi. “Vamos papai, faz isso!” Então essa provavelmente será a próxima. Acho que me afastei das tattoos bobinhas. Por um tempo em Seattle, parecia que todo mundo estava fazendo desenhos como um macaco montado em um cão com uma sela. Mike Squires, guitarrista do Loaded, tem um touro tipo um matador. Sabe, durante toda minha bebedeira, eu me esforcei para esquivar de ter um Mickey mouse, um Piu-Piu, ou o emblema do Super-Homem – ou qualquer uma desse tipo de fantasia como Dungeons & Dragons. Então eu não tenho certeza se quero uma dessas agora. Talvez faça um Viking segurando um lobo rosnando com uma corrente... Seria demais.

 
Duff McKagan Brasil © 2011-2015